A chamada "POLÉMICA DE BARRANCOS"
Face a afirmações incorrectas e deturpadoras da verdade histórica, veiculadas por certas pessoas ligadas ao Partido Socialista que continuadamente se reivindicam a autoria da solução para o "caso de Barrancos", no respeitante à tradição das corridas com toiros de morte, pondo inclusivamente o nome do antigo Presidente da República Jorge Sampaio como o principal obreiro de tal feito, a mim enquanto interveniente activo de tal luta e com funções de liderança da mesma, cumpre-me fazer este esclarecimento:
Convém salientar que fomos durante séculos, e continuamos a ser a única terra portuguesa em que se matam os toiros na arena, após lide na praça.
Durante séculos houve um deferimento tácito por parte das autoridades, mesmo que contrariando as leis vigentes sobre a questão tauromáquica, compreendendo a especificidade das nossas tradições culturais, e permitindo as nossas Festas de Agosto em honra de N. Sra. da Conceição de Barrancos.
Na segunda metade da década de noventa do século passado, começaram os ataques fundamentalistas das associações ditas defensoras dos animais, com as Providências Cautelares, os inúmeros Processos Judiciais contra nós, e as célebres Coimas inventadas pelo ministro da Administração Interna Fernando Gomes do governo do Eng.Guterres, instauradas contra as Comissões de Festas, Toureiros, Ganadeiros e contra a própria Câmara Municipal na pessoa do seu Presidente(eu), duplamente enquanto titular do cargo e como cidadão!
Principalmente a partir de 1997, com a aplicação da 1ª Providência Cautelar, a "Fêra de Barrancos" tornou-se o centro mediático de todas as atenções nacionais e internacionais. Inúmeros visitantes, amigos, e aficionados taurinos que vinham dar o seu apoio enchiam todos os anos a Vila de Barrancos. as televisões nacionais e estrangeiras, rádios e jornais passaram a fazer parte do nosso quotidiano, instaladas ao redor da praça, e os directos eram contínuos.
Como Presidente da Câmara na altura, e como guardião das tradições culturais da nossa terra, tomei a direcção das operações, e com o apoio logístico da minha equipa de governo municipal, fizémos frente aos ataques de que éramos alvo, e com o inprescíndivel apoio da população gizámos a estratégia que julgámos mais acertada para enfrentar a situação, e que o tempo nos demonstrou ser a mais correcta.
Resistimos a todos os ataques, sempre com a população ao nosso lado, e contando sempre com a compreensão da Guarda Nacional Republicana que deu um verdadeiro exemplo de colaboração institucional privilegiando o interesse de toda a comunidade barranquenha.
Tomámos todo o tipo de iniciativas junto dos grupos parlamentares com assento na Assembleia da República e com o próprio Governo do Eng.Guterres (reuniões com o Sec. Estado Armando Vara, e com o próprio Ministro Jorge Coelho), e apesar dos muitos Projectos de Lei apresentados por vários partidos para solucionar a polémica terem sido chumbados principalmente por socialistas e bloquistas, não vergámos e enfrentámos com êxito todas as ameaças.
Finalmente veio a solução porque tanto tinhamos lutado, no seguimento de várias tentativas conseguiu-se a esperada aprovação na Assembleia da República de uma Lei de Excepção para Barrancos através da Lei nº 19/2002, de 31 de Julho, após proposta conjunta do CDS/PP, PCP e PSD. Esta Lei de Excepção foi aprovada com os votos maioritários destes três partidos e de apenas cinco Deputados do Partido Socialistas(entre os quais o Dr.Manuel Alegre e o Dr.Vera Jardim). Elucidativo!
O papel do Dr.Jorge Sampaio (pessoa por quem eu tinha consideração), resumiu-se a numa reunião que tivemos a seu pedido no palácio de Belém em Agosto de 1999, a aconselhar-nos a adiar a Feira tendo insistido na tensão social que então se vivia em Barrancos e a sua repercussão no País, algo que seria impensável para os Barranquenhos, e a construir a praça na fronteira (ideia que já tinha sido avançada pelo então alcalde de Encinasola, e meu amigo António Terrón), metade para cada lado e matar o toiro na parte espanhola (!), e posteriormente a homologar a Excepção já aprovada pelo parlamento.
Para conseguir tal objectivo foi fundamental haver uma liderança forte, e o sentimento de pertença de toda uma população consciente e mentalizada para lutar e vencer a sua luta.
Posteriormente em 2012, por proposta minha a Câmara Municipal deliberou por unanimidade declarar a Tauromaquia como Património Cultural Imaterial Municipal, sendo esta decisão depois ratificada pela Assembleia Municipal, como forma de protecção em termos de futuro, e também como elemento fundamental para manter a coesão social da comunidade barranquenha.
A verdade histórica não se compadece com inverdades e é apenas uma, estes são os factos daquilo que verdadeiramente se passou em Barrancos naquele período da sua vida (a chamada polémica dos toiros de morter) enquanto comunidade local de gente que soube defender com firmeza a sua Identidade Cultural.
Aquilo que distinguiu os Barranquenhos, foram a coragem e a tenacidade com que souberam vencer e conseguir com a ajuda de todos aqueles que contribuiram para consagrar na Lei, a Excepção, que mais não foi que o reconhecimento e a consagração do seu Direito a ser diferente.

