DIEGO CORRIENTES - DE SEVILHA A BARRANCOS
Há dias passeando por Sevilha, saíndo da Calle Sierpes em direcção à Plaza de San Francisco, reparei que à esquerda na bifurcação que conduz à Plaza de El Salvador, e no majestoso edifício ali situado estavam as placas toponímicas ENTRE CARCELES e FRANCISCO BRUNA.
Fiquei intrigado, aquelas designações despertaram a minha atenção e prometi a mim mesmo investigar o porquê daqueles nomes, o que fiz de imediato,
Após pesquisa frutífera, constatei que a primeira placa se referia à Cárcel Real e à Cárcel del Oidor e a segunda era uma homenagem ao "Juez especial para la Represión del Bandolerismo en Andaluzia, Don Francisco de Bruna y Ahumada"(1719-1807), que foi também Alcalde de Los Reales Alcázares de Sevilla (popularmente chamado "El Señor del Grán Poder", devido ao seu poder e autoridade na cidade) y Juez perseguidor de bandoleros como Diego Corrientes ajusticiado por su orden en la Plaza de San Francisco el viernes santo de 1781.
Forçoso é recuar àquele período entre os Séculos XVIII e XIX, em que o bandoleirismo foi um fenómeno que teve grande importância em determinadas áreas da Península Ibérica, adquirindo um cariz claramente social graças à chamada literatura de cordel, novelas e obras de autores consagrados.
Viviam-se tempos conturbados por toda a Europa e no caso da Península Ibérica com a má governação nos dois países, avolumados pelas crises económicas, as epidemias, as convulsões sociais, rematadas pelas invasões francesas, criaram-se as condições propícias e o pano de fundo ideal para o surgimento do fenómeno do bandoleirismo no espaço penínsular.
Vieram-me à memória aquelas histórias empolgantes que minha tia Dores Caeiro Tereno (uma ilustrada senhora que apesar de ter somente a escolaridade básica, era dona de uma cultura e uma paciência inesgotáveis, que sabia prender a nossa atenção) nos contava, fruto do seu relacionamento com senhoras de origem espanholas que vindas de Sevilha, Huelva e outras localidades principalmente de Andaluzia e Extremadura, se tinham radicado na Vila de Barrancos.
Recordo principalmente a história do Barquero de Cantillana (1819-1849), que fazia a travessia do rio Guadalquivir e que devido a uma injustiça se tornou bandoleiro. Contava-nos "que roubava aos ricos para dar aos pobres", com histórias de amores à mistura, que a literatura de cordel então em voga se encarregava de difundir.
Barrancos terra de fronteira, serrania que desde Jaén por via da Sierra Morena nos une com Espanha, e povoa o nosso imaginário de lendas, tradições e realidades históricas foi o terreno fértil para o aparecimento destas situações. Mas para além da lenda romanceada, realidades houve que tiveram realmente que ver com a nossa terra.
Falo de Diego Corrientes Mateo, o bandoleiro de Utrera(Sevilla) nascido em 20 de Agosto de 1757, que começou muito cedo nesta vida por necessidade (viviam-se tempos difíceis, de opressão por parte do poder, de muita miséria nos meios campesinos), a fazer contrabando principalmente de cavalos e tabaco através de Portugal, a assaltar diligências, se um profundo conhecedor das serras de Sevilla, Huelva (Picos de Aroche),e Extremadura espanhola.
Estávamos nos reinados de Carlos III de Espanha e de D.Maria I de Portugal, e foi aqui em Barrancos (que usufruia de alguma autonomia administrativa) e sob o nome de António Ramirez, o palco onde se notabilizou adquirindo uma pousada (contava-se que seria depois a Estalagem de tio Zé Prego!) que serviu como entreposto para os seus negócios, uma vez que fugia á jurisdição andaluza, e lhe permitia exercer a actividade de contrabandista capitaneando uma quadrilha temida pelo poder da época.
Bandoleiro romântico, cantado e idolatrado pelo povo a quem no dizer de cronistas da altura, ganhou fama de ajudar os mais necessitados, conseguiu assim o seu apoio e a sua cumplicidade para conseguir escapar ás autoridades que o perseguiam.
É nesta Vila que fixa a sua residência, sendo considerado mais um dos seus habitantes, um dos muitos espanhóis que por cá viviam. Foram alguns anos de muita actividade com o epicentro na terra barranquenha, de muitas correrias, de muito contrabando sem que as autoridades espanholas da época conseguissem prendê-lo, tendo mesmo posto a sua cabeça a prémio - Edicto de 22 de Dezembro de 1780, da autoria do Juiz e Alcalde de Sevilla, Don Francisco de Bruna y Ahumada - e tentado todo o tipo de emboscada e traições para o prender.
Desesperadas, as autoridades andaluzas conseguem a colaboração das autoridades portuguesas que com base numa denúncia, o conseguem prender perto de Olivença, então portuguesa.
Sendo pedida a sua extradição, é levado a 2 de Novembro de 1780 para a prisão de Badajoz e posteriormente a 25 de Março de 1781 chega à Cárcel de los Oídores, sendo julgado e condenado a ser executado no dia 30 de Março de 1781, festividade do Viernes Santo, no patíbulo levantado na Plaza de San Francisco, em Sevilha.
A opinião pública e figuras influentes da época atendendo a que Diego não tinha delitos de sangue, consideraram exagerada e cruel a pena.
Resumidamente, sendo o bandoleirismo um fenómeno social muito comum que percorreu os séculos XVIII e XIX em Espanha e Portugal, chegou até nós a imagem romantizada que converteu estes personagens em nobres e valentes aventureiros, que desafiam a autoridade não por riqueza ou fama, mas sim por um conceito de justiça superior a eles e pela defesa do povo oprimido.
Afinal todas as lendas escondem algo de realidade!







