QUANDO OS PORTUGUESES CHAMARAM "JENÍZAROS" AOS BARRANQUENHOS!
Janízaros - Jenizaros - Este termo era utilizado para designar os soldados da guarda pessoal dos sultões otomanos (criada em 1365 pelo sultão Murade I, na Turquia), cuja força militar era composta principalmente por crianças cristãs capturadas e feitas escravas nas guerras contra os reinos cristãos limítrofes, ou através do chamado "imposto de sangue" (devsirme) que o sultanato impunha aos mesmos estados, e em que cada família camponesa ficava obrigada a entregar um de cada cinco filhos para a guarda do sultão, sendo depois treinados e convertidos ao islamismo.
No caso de Barrancos e naquela época, o termo era utilizado de forma pejorativa, muito devido à forma de falar dos barranquenhos de então, fruto das inflências culturais do País vizinho, não só na fala mas também nos usos e costumes.
Igualmente D.Luis de Menezes, Conde da Ericeira no índice da sua obra, História de Portugal Restaurado refere: Barrancos, Lugar em Alemtejo, arraza-se pela infidelidade de seus moradores.
Curiosamente, ou talvez não tanto, por ser um povo de fronteira a então aldeia de Barrancos, pertencente ao termo de Noudar (históricamente comprovado pelas fontes escritas) foi queimada e arrasada em três ocasiões distintas, de que faremos eco com transcrições que o evidenciam.
Primeiro durante a Guerra da Restauração de Portugal, que opôs o nosso País a Espanha, sob cujo domínio estivémos sessenta anos, concretamente o episódio que aconteceu no Verão de 1641:
"Assistia em Beja formando o seu Terço D. Francisco de Sousa; chegou-lhe aviso que em Moura, para onde o Terço estava destinado entregando-lhe El-Rey juntamente o governo da Praça; havia nos animos dos moradores algum movimento, com indícios de pouca constancia na defesa da Praça: passou-se logo a ela, querendo atalhar que senão levantasse grande incendio, o que até aquele tempo era faísca. Chegando a Moura averiguou que os moradores de Barrancos havião sido os mais culpados naquela alteração. Deu D.Francisco logo conta a El-Rey deste sucesso, e havendo-lhe chegado outras noticias de maiores insultos destes Paysanos, a quem chamavão Genizaros os de Alemtejo, por haverem partido até o idioma Portuguez com a lingua Castelhana; ordenou El-rey a D. Francisco de Souza, que para castigo deste e terror dos mais Lugarees arrazasse logo Barrancos. Era este Lugar dos Condes de Linhares, ficava na Raya de Castella defronte de Enzina Sola; e além das razoens referidas estava tão empenhado dentro de Castella. e era tão dificil, e pouco util conservallo, que sem a culpa dos moradores fora justo destruillo.
Marchou D. Francisco a executar a ordem de El-Rey; observando o segredo por não fazer rebeldes os que erão so máos Vassallos; exemplo que pudera ser naquelle tempo de grande prejuízo chegou a Barrancos, mandou sahir do Lugar todos os moradores, e depois de tirarem o fato lhe puserão os Soldados o fogo. Recolheo-se D. Francisco a Moura sem embaraço dos Castelhanos, e voltou a Beja a acabar de formar o seu Terço."
No segundo caso, devido às Invasões francesas que decorreram de 1809 a 1812, e conforme é referido na obra: "O Alentejo na Guerra Peninsular", CIDEHUS/ Univ.Évora, os franceses atacaram várias povoações fronteiriças alentejanas entre as quais Barrancos; furtando gado e bens alimentares; incendiaram casas; fizeram reféns para extorquir dinheiro às populações; e praticaram todo o tipo de vandalismos e atrocidades.
Finalmente durante as chamadas Guerras Liberais, que opuseram as tropas absolutistas de D. Miguel I, ás constitucionais de D. Pedro IV e D. Maria II, precisamente a 24 de Março de 1834 e apenas porque os barranquenhos simpatizavam com a causa liberal, o francês Conde de Bourmon ao serviço de D. Miguel, manda saquear e incendiar a vila de Barrancos:
"A 24 de Março deste ano de 1834, o conde de Bourmon, filho do General francês Bourmont ao serviço do usurpador, estando com o grosso do seu exército em Serpa deixa o castelo dessa vila guarnecido para o defender de algumas tentativas das tropas constitucionais e vem com o resto para Moura; que deixa para ir sobre Barrancos, onde entrou depois, que se retirou uma companhia de Linha espanhola, e alguns paisanos Portugueses armados, e uma pequena guerrilha, e entrando pela estrada de Sto Aleixo por onde só podia entrar com duas peças, que levava, vendo a pouca distância, e em território espanhol toda a força, que se tinha retirado para não comprometer a povoação de Barrancos, com receio dela, manda saquear a Vila, e para mais de 600 casas lançar-lhe fogo!"
Curiosamente nas Inquirições de 1493 sobre a aldeia de Barrancos que Castela pretendia ser sua, os habitantes da terra barranquenha apesar da maioria ser de origem espanhola, tinham afirmado sob juramento, quererem ser do Reino de Portugal, inclusivé contra as pressões exercidas pelos dignatários espanhóis durante a inquirição.
O que é indesmentível é que o povo barranquenho apesar destes episódios de intolerância de que foi alvo em tempo de guerras, sempre demonstrou o seu carácter solidário para com quem precisava, e exemplo disso foram: as vagas de imigrantes castelhanos que recebeu em várias alturas; o acolhimento e a concessão de asilo político por parte do então Administrador do Concelho de Barrancos, Manuel Cláudio Pulido em 20 de Janeiro de de 1866, às tropas do General Juan Prim y Prats (e ao próprio) quando fugiam do exército da rainha Isabel II de Espanha; e os milhares de refugiados espanhóis naconalistas ou republicanos que durante a Guerra Civil, mais precisamente em 1936 buscaram refúgio e encontraram a salvação em Barrancos.
Fontes:
-História de Portugal Restaurado -Luis de Menezes, Conde de Ericeira - Tomo I, Lisboa MDCCLI.
-Annais de Moura, 4ª edição, Biblioteca Municipal, 1982.
-História do Cerco do Porto, Tomo II.
-Gavetas da Torre do Tombo, Gavetas 14, mç.5, nº21
-O Alentejo na Guerra Penínsular-Teresa Fonseca-CIDEHUS/Universidade de Évora.










