DA FENÍCIA MALETH, À GREGA MELITÊ E À ROMANA MELITA, EIS-NOS EM MALTA!
Era noite quando sobrevoámos a cidade de La Valletta, atravessámos as nuvens densas e começámos a divisar as luzes que anunciavam uma urbe monumental. Depois de uma excelente aterragem rumámos ao hotel que nos iria acolher, não sem antes atravessar ruas com iluminação apropriada aos inúmeros monumentos que divisámos, mas bem seguras, sensação que depois confirmámos, era uma realidade.
A minha mente retrocedeu no tempo e no espaço daquele arquipélago que sempre me fascinou: ocupado desde o período Neolítico (c.5200 a.C) por povos que terão vindo da Sicília, assistimos à construção dos magníficos templos megalíticos de Ggantija, Mnajdra e Hagar Qim entre outros. Nestes dois últimos a cerca de 15 Km da capital Valletta, e junto à falésia abrupta que se debruçava sobre o mar Mediterrâneo, surpreendeu-nos a riqueza dos seus templos rituais, com os seus altares de sacrifícios, o alinhamento das suas portas com o sol e a recriação dos solstícios da Primavera e do Outono, subjugando-nos a omnipresença dos enormes blocos de pedra caliça que dominam a paisagem.
A seguir ao Império Romano que durou até ao ano 395 d.C, veio o Império Bizantino que lá ficou até 870 d.C, quando foi conquistada pelos árabes que influenciaram a sua agricultura, língua e cultura.
Foi depois conquistada pela Sicília que por lá se manteve até à vinda dos normandos, a que se seguiram novamente os muçulmanos, o Reino de Aragão, Espanha,culminando com a entrega feita pelo imperador Carlos V aos Cavaleiros de Rodes, e depois à Ordem Hospitalar de S.João de Jerusalém após a sua expulsão da Terra Santa e posteriormente da ilha de Rodes pelo Império Otomano em 1530.
Os Cavaleiros da Chamada Ordem de Malta, mais concretamente a Soberana Militar e Hospitalar Ordem de São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, governaram a ilha instituindo leis e regulamentos para a vida dos seus habitantes, construindo fortificações, monumentos, palácios, e defendendo as ilhas dos sucessivos ataques por parte dos otomanos como foi o grande assédio de 1565, em que os Cavaleiros Hospitalários conseguiram uma vitória decisiva sobre a armada e as tropas do sultão Suleiman, o Magnífico.
Veio a seguir Napoleão Bonaparte que expulsou os Cavaleiros, para ter uma base de apoio para a conquista do Egipto, mas as pilhagens dos franceses principalmente a igrejas tornaram a sua presença impopular, e no seguimento da sua derrota pelos ingleses, estes ocuparam a ilha até 1947 quando esta se tornou autónoma do Império Britânico, proclamando-se totalmente independente em 21 de setembro de 1964, e com a designação de Repubblica Ta' Malta (República de Malta) em 1974.
Convém referir o importante papel que Malta desempenhou durante a II Grande Guerra Mundial, em que devido à sua importância estratégica no Mediterrâneo e ao lado dos Aliados resistiu ao assédio de alemães e italianos, dando a sua população provas de valor, coragem e heroísmo.
Hoje é um País próspero e dinâmico, acolhedor para quem o visita, virado para um turismo qualificado, com uma população afável e simpática, moderno mas respeitador das influências culturais que sofreu ao longo da sua História, privilegiando as suas belezas naturais e a sua inesgotável oferta lúdica e cultural.
Seria injusto não destacar o importante papel dos Grão-Mestres portugueses que governaram a Ordem em distintos períodos da vida de Malta, salientando:
- Frei Dom Luis Mendes de Vasconcellos 55º Grão- Mestre, natural de Évora que governou de 1622 a 1623, e está sepultado na cripta da Catedral de S.João em La Valletta.
- Seguindo-se o Sereníssimo Princípe Dom António Manoel de vilhena que governou de 1722 a 1736, ano da sua morte.
Foi um reputado estratega militar,organizando a defesa e repelindo os ataques dos turcos, muito querido pela população criando instituições de caridade, fundou a cidade de Floriana, constuiu o Forte Manoel e o Teatro Manoel, o segundo mais antigo da Europa, ou seja com a sua obra notável elevou bem alto o nome de Portugal por aquelas paragens, e está também sepultado na Concatedral de S.João de Malta.
- Finalmente Dom Frei Manuel Pinto da Fonseca, 68º Grão-Mestre, natural de Lamego, foi o primeiro a usar o título de Sua Alteza Eminentíssima e exerceu o cargo de 1741 a 1773, sendo o mais longevo de todos os Grão-mestres, foi um verdadeiro soberano do período do Iluminismo, regulando a governação da ilha, fundando a universidade e a imprensa e restaurando palácios e monumentos.
Em Malta vivemos dias fantásticos que nos enriqueceram culturalmente, Visitámos igrejas e monumentos grandiosos, passeámos por ruas sinuosas e grandes avenidas, por vilas e cidades tão diferentes como a capital La Valletta, Floriana, Mdina, Rabat, II-Birgu, Vittoriosa, Sliema, Marsaxlokk, Victoria e tantas outras, agradecidas a quem trabalhou, lutou e se dedicou a elas.
Provámos a rica gastronomia maltesa e os bons vinhos produzidos desde a época dos fenícios nos terrenos calcários da ilha, onde o clima quente e húmido empresta a qualidade. Tivémos a oportunidade de estar presentes nas comemorações do Dia da Liberdade a 31 de Março, que celebra todos os anos o fim da presença militar estrangeira na nação maltesa.
Notámos com agrado a recuperação e proteção do património construído e monumental, as muitas placas e monumentos de homenagem ás figuras que marcaram a sua História demonstrando a gratidão dos seus cidadãos, a arquitectura tradicional dos seus prédios com as portas e janelas emprestando o seu colorido variado, a limpeza e a organização, o profissionalismo e a afabilidade de todos os que trabalham no sector turistíco e comercial bem como dos funcionários e forças de segurança, aliás a segurança é bem visível e a liberdade de circulação uma certeza!
Recomendamos vivamente uma visita a terras maltesas, um bom exemplo do que deve ser a civilização ocidental, bebendo influências de outras civilizações, mas mantendo e defendendo a sua integridade cultural!











