MEU TIO " O GENERAL" - HERÓI DE "LA LYS".

De seu nome António Caeiro Tereno, meu tio e irmão de meu pai, viveu os sacrifícios, os horrores e a bravura daqueles que pisaram os terrenos pantanosos e lamacentos da região de Aire-Sur-La Lys, em França naquele período de má memória e de intolerância entre os povos europeus durante a chamada 1ª Grande Guerra Europeia (1914-1918), que pôs de um lado a Alemanha, Império Austro-Húngaro e Império Otomano, entre outros e do outro os Aliados com destaque para a  França, Grã-Bretanha, Itália, e Portugal através do CEP-Corpo Expedicionário Português, sob a chefia do General Fernando Tamagnini de Abreu e Silva.




   


Meu tio, a quem carinhosamente chamávamos "O General", devido ao seu porte marcial, à disciplina e respeito que infundia nos demais que com ele privavam, fez parte dos mobilizados que fizeram a preparação no Polígono Militar de Tancos, seguidamente integraram o CEP, embarcando no dia 20 de Abril de 1917, no Porto de Lisboa rumo a terras de França para serem integrados na área de defesa atribuída ao exército inglês na frente ocidental.


                         




                  
                                                   (momentos de lazer, antes dos combates)


Convém esclarecer o cenário de desorganização moral e política que se vivia no nosso País, num tempo em que os partidos políticos se digladiavam entre sí com lutas estéreis pelo poder, numa República que ao princípio alimentara ilusões rumo a um tempo novo com igualdade, com a melhoria de vida para a população e com o progresso, e que afinal se tinha tornado um Estado ingovernável, dizia eu que foi neste cenário que o CEP foi completamente abandonado à sua sorte pelos políticos e generais sem brio e sem sentido pátrio.


                      ( Confraternizando com camaradas de armas, num momento de descanso)

Chegado ao teatro de operações sofreu as agruras das trincheiras, dos gases e  bombardeamentos alemães e dos combates que fizeram o dia a dia daquele inverno rigoroso que assolava aquela região francesa.

Fez parte daqueles que não vergaram, apesar de mal equipados e sem apoio logístico de retaguarda, estando longos meses sem serem rendidos por outras tropas nacionais ou inglesas, na frente Bois-Grenier-Givenchy.

No dia 9 de Abril de 1918 deu-se a Batalha de La Lys, começando com uma grande ofensiva do exército alemão na região da Flandres e no sector português onde a nossa presença foi heróica, atendendo a que as nossas forças nem sequer tinham sido rendidas por outras, estavam esgotadas, mas continuavam a resistir ainda que com inúmeras baixas, mas os alemães superiores em número, melhor armados e descansados conseguiram abrir uma brecha nas posições anglo-portuguesas, e a consequência foi perder-se uma Divisão onde estavam englobadas todas as forças expedicionárias portuguesas, cessando assim inglóriamente a nossa presença na frente de batalha.

Resultado, as baixas portuguesas ascenderam a cerca de 7.000 homens, sendo capturados pelas tropas do 6º exército alemão sob o comando do general Von Quast, cerca de 6.000 soldados e oficiais.

Os próprios comandos ingleses nos seus relatórios, destacam a postura dos portugueses no campo de batalha, a coragem com que se mantiveram no seu posto em ocasiões de perigo nas trincheiras e em campo aberto desafiando o inimigo.

Regressado ao País, e sendo desmobilizado ingressa na Guarda Fiscal tendo sido destinado para a construção do Posto (Caseta) das Russianas, e para nele prestar serviço, foi testemunha e participante durante a Guerra Civil de Espanha, no apoio e defesa dos refugiados que buscaram a salvação nos campos de acolhimento da Coitadinha e das Russianas (Choça do Sardinheiro), sob o comando do Tenente António Augusto de Seixas, mostrando aqui o seu lado humanitário.



Atingido o licenciamento do serviço e passando à reforma, sentindo já os efeitos maléficos dos gazeamentos que sofrera em França, acabou ficando com graves problemas de pele que o obrigaram a cuidados permanentes durante toda a vida.

Carinhoso com os seus, amigo da família e dos amigos, mas impondo respeito pela sua postura, recordo com saudade as histórias que me contava das suas vivências em terras francesas e da própria guerra que ele vivera intensamente, histórias que eu escutava embevecido e com profunda gratidão e admiração, ele que foi para mim um exemplo, o meu tio Antonico será sempre para mim "O General"!







Mensagens populares